quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Carlos Minguado - Carta 6

rua conceição, outubro 2010

mal e porcamente eu dediquei minha vida à infrutífera tentativa de entender como acontecia a coroação do romance. acho que me dediquei pouco. nos meus momentos de carência busquei nos lugares errados um calor. fogo em latas lixo. queimei papéis velhos que poderiam conter verdadeiras obras primas da dedicação de um coração que escreve. perdi a hora de buscar dentro de mim o maior carinho do mundo. aquele que só se encontra só. dediquei-me demais às tendências da investigação psicanalítica do que viria a ser o amor. e se o amor nem existir? e se for só uma das tantas ilusões que nós já construímos?
encontrei prazer em escrever, mal e porcamente, linhas sobre mim. mas nem são sobre mim. são sobre o que vejo nos outros e tomo pra mim. minha história esteve espelhada na vida dos outros. mudei-me para cá buscando a salvação ou a perdição total. outra ilusão. mudar de lugar não mudou minha alma de lugar. ela continua pairando por aí. por onde você mora que é onde supostamente mora meu amor. é, amigo, falo dela mesmo. acho que estou voltando. encarei por muito tempo essas fábricas. construí uma ficção sobre corações de plástico e insultos coisificados.

acho que é hora de voltar. para casa.

Carlos Minguado

terça-feira, 19 de outubro de 2010

incompreensão

é porque eu nao no teu corpo
que eu posso te julgar
é porque as lágrimas do teu rosto não são minhas
que eu posso sorrir

porque se não fosse assim
eu estaria no fundo do poço
e você só pele e osso
rindo da minha desgraça

é porque eu quero rasgar minhas cartinhas
e escrever novas modinhas
que eu posso estender tapete vermelho
à minha raiva

é pensando em trapaça que eu peço
e o tempo passa
e pensando no abandono
lembro do teu coração no bolso

porque quem hoje se abate
amanhã há de abater
porque a gente não vive em açougue
mas amanhã pode ser dia de matadouro

sábado, 9 de outubro de 2010

.

para eLa

de ponto em ponto
construí um ideal
com dois pontos
te apresentei

com ponto de interrogação
tentei te entender
com reticências
continuaste uma incógnita

com exclamações
me explico e me repito
com interrogações
tu insistes

com ponto final
encerrei esse caso
daí só texto sem pontos
parágrafo eterno é o que faço

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

dentes

nos dentes tortos
na maçã a mordida torta
nos dentes podres
sorriso lindo

minto ao dizer que sorris bonito
mas digo a verdade ao pensar na tua beleza
pois a beleza em pedir é curta
dura apenas o momento de o ônibus parar

escreveste errado neste papel
como escreveste com mentiras repetidas teu discurso
mas quem te impõe a mentira sou eu
eu e meus irmãos

na próxima parada desces
uns solidários
outros nem tanto
alguns centavos para tua mãe

mordida torta
nessa grande maçã de poucos
maçã podre
porém dita democrática

boa noite pra quem tem dentes
saudações pra quem sorri
já nem sei quem mente
apenas digo o que ouvi
o que seria das hiperboles sem os hipérbatos invertendo as casas palavrísticas que se escondem nas entrelinhas?
um dia comentar com os amigos:
não seria o que chamamos de liberdade o simples ato de na verdade mudar de prisão?