quinta-feira, 10 de março de 2011

som e cabelos tingidos

talvez um dia eu volte a escutar. eu andava ressabiado com
o barulho que surgia todas as noites por dentre as frestas da porta
que dava pra o quarto ao lado. quarto habitado por uma mulher que vi uma
ou duas vezes. ela tinha cabelos tingidos de loiro. um nariz meio curvo.
anda quase sempre com um piercing na orelha. morava então na pensão
viva luz próximo ao aeroporto. todos os dias o barulho das aviações
invadiam nosso espaço e faziam com que qualquer um parasse por um instante
para deixar o barulho correr pelo meio material que nos rodeia. uma conversa era
interrompida. uma leitura parava num momento crucial. e o avião passava.
um dia logo após o avião passar comecei a escutar o estranho barulho que vinha
do quarto da mulher de cabelos tingidos do lado. o som lembrava uma
batida sincopada de jazz. estranha comparação. da primeira vez que ouvi o som
me deixei cair sobre ele e quase flutuar. barulho repetido. e dia após dia foi assim.
passava o avião. o barulho começava. parava meia hora depois. uma dia na escada
esbarrei com a mulher. reparei que ela pouco olhou pra mim.tive a sensação de já conhecê-la
faz tempo. mas não me deixei impressionar por isso. assim seguiram os dias. barulho.
aviões. aviões. barulho. jazz. interrupções de pensamentos. um dia sonhei com
o som. foi como viver outra vida. nessa vida eu matava a mulher que amava.
a mulher que eu amava era a de cabelos tingidos. eu a conhecia desde a infância.
a vira crescer. virar uma linda mulher. via que ela começava subitamente a envelhecer.
tinha uma doença. ela estava morrendo. ela pediu que eu a matasse.
cumpri com meu papel de amante executor. aí acordei. nenhum avião tinha passado.
pelo menos não que eu tenha percebido. mas o barulho estava lá. a batida havia mudado.
no outro dia cruzei com uma mulher morena saindo do quarto ao lado do meu.
cabelos negros. sem piercing. o barulho havia mudado. segui minhas noites.
a partir desse dia fiquei surdo.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

leitura

a leitura perigosa se mistura com a realidade. estar lendo implica também um entrelaçamento do que se pensa a cada momento. palavras que não estão texto passam a ser parte do tecido que se forma na mente. uma nova narrativa se forma a cada momento. no meio da história quando o herói conta suas façanhas enfia-se um novo romance. uma paixão recém surgida que não tem razão de ser e nem futuro e que poderia fazer parte da narração do herói. existe o risco de se achar que é o herói ou então do herói sair das páginas e roubar a donzela que se deseja. a leitura é perigosa tanto quanto a vida.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

3

ancorar-se nas nuvens subentende a vontade de partir.
as nuvens não seguram nada.

2

se quiser viver sozinho misture um pouco de amargura com um tiquinho de incompreensão

sábado, 5 de fevereiro de 2011

sem destinatário

se eu te pedisse pra me dar carinho,
tu me davas?
se eu te pedisse pra sorrir,
tu sorrias?

se eu quisesse só viver de ti,
viveria?
e se eu pudesse descobrir quem sou,
poderia?

e quando eu quisesse cantar,
seria por querer?
e quando eu quisesse ler,
seria por crer?

e se eu quisesse dormir,
cantaria pro sono vim?
e se fosse só a gente no mundo,
escreveria isso pra ti?

domingo, 30 de janeiro de 2011

1

pegue uma sacola e ponha todos os seus pensamentos nela e depois toque fogo.
felicidade instantânea e nada duradoura.
logo logo voltarás a pensar.