sexta-feira, 3 de setembro de 2010

mudeza branca

- por que você só anda vestido de preto?

- não sei.

- tem alguma coisa a ver com luto?

- tem sim.

- e tem algo a ver com você gostar da cor?

- tem também.

- e o calor, tem algo a ver com isso?

- claro que tem.

- hum, ao que me parece você é cego.

- e por que?

- porque você não usa roupas pretas, usas brancas.

- talvez eu seja cego então.

- mas você usa roupas pretas?

- uso, todo o dia.

- e por que?

- não sei.

- você definitivamente é cego. agora você está usando uma roupa rosa.

- hum, cego.

- outra vez usando preto?

- não, dessa vez uso azul.

- você está usando preto.

- eu sou cego.

- e talvez eu esteja perguntando demais.

- talvez.

- eu só uso branco.

- mas você está de verde.

- hum. estou.

- então você também é cego. na verdade você está de branco.

- então ambos somos cegos?

- ambos falamos demais.

- é melhor ser mudo então.


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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

do frio

o frio me atrai.
o silêncio marca onde deveria ouvir voz.
a beleza permanece a mesma quando olho apenas por reflexo?
meu olhar envergonha.
vontade não me falta de usar o telefone.
medo não tenho.
talvez algum receio.
mas tudo tende a melhorar.
senão melhorar, ou se acostuma ou vira a página.
mas o frio me atrai cada vez mais.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

de amigo pra amigo

Amigo, hoje to tão blasé
Tão sem mais nem pra que
Esse negócio de viver é complicado
To ficando enfastiado
Quero fazer punk
Melhor é viver narcotizado

kayo ygor
allan maués

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

meu artista da fome de kafka

salve o artista da fome, que procura alimento onde nada se vê - para os outros.
salve o artista da fome, que os animais enxergam mas nem pensam em comer.
salve o artista da fome, do autor e do leitor.
salve o artista da fome, que engole a narração.
salve o artista da fome, belo e triste.
salve o artista da fome, feliz por ser esquecido.
salve o artista da fome.
salve, ele engoliu o resto das palavras.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

carlos minguado - carta 4

rua plácida, 31 de janeiro de 2012

minha situação atual: embalar sonhos para vender no mercado negro. não há nada de belo nisso.
não há nada de poético nisso. na verdade é bem crua e simplória a situação. minha total inaptidão
para vender e comprar acabaram me trazendo a este ponto. por enquanto sigo. creio que já vem chegando o momento em que precisarei tomar uma decisão importante.
pelo menos uma vez na vida, não é amigo?. mas fora isso sigo respirando. ah, um tempo atrás
encontrei sua primeira namorada, estais melhor sem ela. como a vai a atual? quanto a mim.
sabe quando sentimos dobrando a esquina o perigo? e quando os ventos trazidos por ele toam as orelhas.
e que sabemos ser o perigo. temos certeza, mas torcemos por uma reviravolta. pois bem,
ele dobra a esquina, gostaria de dizer que se trata de amor, mas parece mais se tratar
de violência.
abraços.

domingo, 22 de agosto de 2010

no fim da tarde

aconteceu quando os oceanos afogaram seus peixes.
aconteceu quando meu sono afogou minha paz.
aconteceu quando a vida entornou o caldo.
aconteceu quando você enviou um recado.

despedaçou quando o ar nos sufocou.
despedaçou quando a flor murchou.
despedaçou quando o filme queimou.
despedaçou quando a luz apagou.

rimou quando a vida era cinza.
rimou quando quando a brisa era fina.
rimou quando encontrei o amor.
rimou quando morreu o ator.

aconteceu quando o véu foi cortado.
aconteceu quando os carros capotaram
aconteceu quando a sirene gritou.
aconteceu quando a máquina parou.

esqueci quando te vi.
esqueci quando senti.
esqueci quando me afoguei.
esqueci quando sorri.

entre a primeira e a terceira - pessoas
fico com a do meio.
que nem fede nem cheira.
mas que me deixa seguir sendo.

carlos minguado - carta 3

Sonora, 21/03/2011
definitivamente, amigo, não nasci para isso. o meu problema de saúde retornou com toda força.
minhas instruções são para permanecer calmo e procurar sentir como um afago a dor que o desespero causa.
porque, sim, trata-se de desespero o que sinto. andar pelas ruas, já não posso. dar minhas caminhadas ao meio-dia,
impossível. sinto, sinceramente, que meus pais carregaram por muito tempo muita mágoa e
que toda essa mágoa se transformou em algo genético que transpôs-se para a minha genética e que seria transposta a de meus
filhos, se eu os tivesse claro. acabei de ser interrompido por um telefonema, talvez as coisas melhores.
decidi me aposentar dos casos amorosos. muito complicado.
abraços.