domingo, 5 de fevereiro de 2012

tem uma banda passando

para os amigos.

tem uma banda passando aqui
ela é feita de amizade
tem um bumbo que imita um coração
tem um coração nas mãos do maestro

tem um flautista que se inclina
e tenta alcançar o baterista
tem um trompetista que pula
e tenta alcançar o pianista

pois o pianista ta sempre voando
pois a canção anda e voa
e tem que ter sempre alguém que pule
e sempre alguém que ampare na queda

tem uma banda passando passando aqui
e ela passa todo dia
e deixa minha manhã mais saborosa
e minha noite mais clara

e a banda segue em frente
e tem aquele que segura o prato
espera a hora certa de tocar
e acerta. e aí aquele barulho.

é amor.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

carlos minguado 2012

tem mais verdade nas mentiras que escrevo
do que nas verdades que tu espalhas.

do caderno pessoal de Carlos Minguado

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

lambe-me

que a língua portuguesa me lamba
e que sua saliva entre pelos meus poros
e que eu possa dominá-la
e que ela me domine
e que nessa briga erótica
possamos brincar de pular corda
ou acordar para pular palavras e engolir letras.

domingo, 1 de janeiro de 2012

novo ano

se tem areia nas unhas dos pés
é sinal de que andei com você por dias felizes
se tem queimadura na pele
é sinal de que o sol nos iluminou

e se tem felicidade, é porque soldadinho também sou
e saudadinha tbm sinto.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

três passagens.

ela passava o dia a separar papéis velhos que dava aos passantes que solicitavam os ditos papéis para vários usos. um dia os papéis tiveram fim e ela não pôde mais entregar os papéis aos solicitantes e nem os solicitantes passaram mais por sua casa. foi o fim da mulher dos papéis.

meu filho pediu de presente um oceano. deram-lhe um aquário de 20 litros. ele ficou feliz, mas não parou de sonhar com o oceano. como é bom sonhar. para orfeu.

ela ouvia seu rádio todas as manhãs. as ondas do rádio passaram a ecoar em seu cérebro durante a noite. quando acordou no outro dia estava surda. seu rádio agora é imaginário.

...2012...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

a história da míngua língua na terra da tv e da fumaça invisível

tua míngua língua solta farpas
tua ignorante mente acha que o mundo é simples
nada disso existe sem tu
e com tu o mundo roda

tua singeleza ao pisar nos outros
é como um elefante a pisar nas flores
as flores gritam
mas ninguém as escuta

fritas o teu cérebro em frente a tv
encontras virtudes nos mais seletos condimentos
procuras andar sempre com incrementos
mesmo sabendo que teu nome constará numa lápide e só

apontas o dedo na cara do mais fraco
torces pelo policial que atira no mais fraco
sem saber que és, tu
tão fraco quanto os fracos

enquanto o forte
enrola notas dólares
e fuma, fuma, fuma
joga a fumaça na tua cara

o câncer cresce do inalar passivo
clamas por salvação
levantas para mudar de canal
teu controle remoto pifou

ele está no planalto
e fica chapado com teu dinheiro
e o arrancas de lá?
não. é preferível bater no mais fraco e acreditar que o poder age em teu favor.

é simples assim
porque é demais complicado
empurre goela abaixo
a fumaça, que sentes te cortar, mas que preferes ignorar

talvez porque ela seja incolor, insípida e inodora.
mas quão instável somos nós?

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Li bélu la


Seu zumbido encarou meus olhos. Seus olhos grandes panorâmicos encararam minhas orelhas. Suas asas bateram ainda por alguns microssegundos, até pararem e suas patas descansarem sobre a parede branca, imunda. A tela verde da janela não impediu que ela entrasse. Nada impediria que ela estivesse ali. Meu quarto era dela também. As asas voltaram a bater. Apaguei minha lâmpada. Ela cessou o voo.

Fechei os olhos e dormi, com ela ali no quarto, em algum canto escuro. Próximo aos livros, talvez. Amanheceu. Olho para as paredes a procura dela. Lá está. Imóvel. Na parede imunda. Parece até uma das tantas manchas em formato singular que aparecem sem querer e que nos lembram de algo. Ela não me lembra de algo. Ela é algo. Foi seu último voo. Ela veio até meu quarto pra morrer. Parada. Rígida. Na minha parede.

Sem mais voos. Sem mais zumbidos. Sem mais olhos e sons que se misturam. Eu a tomo pelas asas semitransparentes. Essas redes finas que a faziam ir e vir. Que a trouxeram até aqui. Seu corpo comprido cabe na palma das minhas mãos. Dou meia volta. Saio pela porta do quarto. No meu caminho algumas chuvas de papel picado invisíveis. Algumas homenagens prestadas por formigas. Mais paredes sujas. No som toca alguma marcha fúnebre inaudível. Chego à janela da sala. Nela não há tela verde. Os insetos lá fora zumbem, cantam e buzinam. Sons de pneus. Árvores um pouco distantes. Ponho minhas mãos pra fora. Abro-as. O corpo dela flutua. O túmulo dela é feito de ar, até que ela se choque ao chão e seja engolida pela terra ou pelos seus irmãos insetos. Descanse em paz, jacinta.