terça-feira, 21 de dezembro de 2010

nota 2

dia 36
caminho entre relevos esquisitos. eles me fazem recordar caminhos que percorri na minha infância. existe algo no tempo desse lugar que o faz totalmente diferente do país de onde venho.
sinto falta da minha amada. sei que ela nem se lembra mais de mim. falta. sobre a falta já escrevi em outra oportunidade em algum lugar. há algo muito forte nesse lugar. existem pontes. talvez os residentes daqui se vistam de preto e cantem músicas que remontem às feras existentes aqui ou lá.
sei que tudo parece confuso para quem lê. mas quem lê sou eu mesmo. penso nos admiradores do vento. são seres que aqui vivem, mas ao mesmo tempo não vivem. creio que meus compatriotas talvez os chamassem de cata ventos. mas eles não são apenas cata ventos. tem algo de equilíbrio neles, do qual o lugar inteiro depende. na verdade passo a acreditar que cada coisa está em seu devido lugar por aqui, ou seja, em eterno movimento. hoje o dia parece ensolarado, mas pode ser ilusão, tudo muda muito rápido por aqui. na próxima nota espero poder relatar o encontro com o povo ou povos que aqui residem.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

nota 1

dia 32
não sei a quem escrevo, mas a viagem tornou-se insustentável.
não para mim. tornou-se insustentável para o mundo.
cheguei do outro lado e encontrei alucinações desse lado daqui.
os espaços são invadidos a todo o momento por seres fantasmagóricos cobertos de penas
e com sorrisos infantis. procuro ajuda da consciência e ela me nega.
procuro a salvação nas bússolas e ela se recusa a indicar o norte.
creio que estarei mais seguro debaixo das asas da fênix. a pedra, em forma de fênix,
localiza-se próxima ao coração deste lugar. cheio de muralhas. busco saltá-las.
cada vez pior. continuam a cair gotas de chuva. desilusão. perdi minha última esmeralda.
encontrei por aqui os fantasmas dos meus avós. escavei mais fundo e descobri o quanto é difícil
encontrar luz cavando-se para chegar do outro lado. não recomendo que se pegue o caminho da direita.
jovens que queiram se aventurar, fiquem junto de suas mães.
esqueçam seu passado, pois ao chegar aqui ele se torna um peso desnecessário.

notas de um viajante estranho

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

conotações

dizer o que se quer sem usar a palavra dita como certa
indicar o que não se quer com a palavra certa
desestabilizar as estruturas pra encontrar o que é selvagem
entender o que é racional pra estabilizar as estruturas
esquecer quem já se foi
pra encontrar o que talvez não esteja

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

queria ser velho hoje, pra ter só boas lembranças.
de como meus planos deram certo.
de como fui feliz.
mas enquanto sonho envelheço.
porque coisa impossível é impossível.
e tempo é tempo.
e poucas linhas são poucas linhas.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

cartinha de minguado

crinas, 31-12-2012

nascemos e crescemos na falta. falta de algo que nem sabemos o que. falta que nos
ronda a todos os momentos. nos espreita ao menor sinal de
dificuldade. faz com nos rendamos às vezes. às vezes lutamos já sem nem saber o porque.
cansa saber que falta algo assim. sem nome.falta nome porque falta imagem.e isso que falta gera
tanta falta. falta de amor aos que nos cercam. falta de paciência. falta de tolerância.
andei junto aos marginalizados. vi que para eles às vezes falta muito pouco. vi que eles sofrem.
sofri junto com eles. raiva junto com eles. percebo que até hoje minhas cartinhas à você, caro amigo,
sempre tiveram tudo a ver com a falta. percebo que a falta me isola e ao mesmo tempo me une.
vejo que para você também falta algo.
talvez você nem perceba. talvez você leia minhas cartas e depois as queime. ou simplesmente aumente a pilha
de lixo que já quase destrói nosso mundo. talvez você não perceba que o que falta a você e a mim
somos nós mesmos. todos que por aqui insistem em caminhar. em respirar. numa teimosia incompreensível para
qualquer ser com um pouco de discernimento. de falta vive o homem. com falta morre o homem.
sem a falta o homem não é homem.
um dia volto pra casa.
abraço,
carlos minguado

terça-feira, 23 de novembro de 2010

vazio

procurar no vazio
a infinitude de barris cheios
cheios de amor
cheios de terror

mergulho no infinito
em busca do finito tempo
encontro cheio meu pensar
de pesar

o que parece cheio de tristeza
é a luz no fim do túnel
porque o que parece normal
restaura a incompreensão da anormalidade

terça-feira, 9 de novembro de 2010

breve de carlos minguado

rua sombrero, 21 de dezembro 2011
acúmulo. acumulo. acumulando. acumulei.
acho que o cúmulo maior é guardar tanta coisa: no cérebro, no coração, em porões, em estantes, em hds e nunca usar nada disso pra mudar nada. eu me pego pensando nesse cúmulo e me auto incrimino. o que que eu tô fazendo? eu já li muita coisa. já escutei muita. já vi muita coisa. ainda tenho muito pra ver/ouvir/ler. mas não quero chegar no fim da vida e perceber que armazenei muito e não usei isso pra nada.
nao desacumulei pobreza. não extingui sentimentos ruins. não esvaziei pulmões cheios de ar que não servem pra nada.

mas ai eu deito e durmo com um gosto de revolta na boca. no outro dia já estou anestesiado de novo.

preciso voltar pra casa e mudar algo por aí.

carlos minguado